Já era falado há muito, e parece que foi mesmo para a frente. O novo TATA NANO foi apresentado há dias no salão de Genebra, e promete revolucionar os transportes na Índia… E não será só os transportes que irá revolucionar com certeza. Vi ontem nas notícias um responsável da empresa falando, a meu ver hipócritamente, sobre os objectivos “sociais” deste projecto. A ideia, segundo ele, era permitir que os Indianos tivessem acesso a carro e daí um carrito tão barato. Sim senhor, é disto que os indianos mais precisam: um carro. Que bela acção humanitária. Vejamos, vamos colocar no mercado um carro baratíssimo (e ainda assim fora do alcance da carteira de muitos) e sem nada. Sim, anda e pouco mais. Não oferece segurança, não tem nenhum extra (ar condicionado, rádio, air bags, etc, etc…), e é curioso: a frente é de plástico. Sim porque quem é pobre não precisa de nada disso. Os indianos deverão estar radiantes e agradecidos a esta empresa tão altruísta, principalmente os 250 milhões que vivem na pobreza absoluta. Com certeza que irão já comprar um carro por 1.500 euros e melhorar a sua qualidade de vida, já já! Mesmo que vivam na rua, com renda inferior a US$ 1 por dia e sem acesso a comida saudável, saúde básica e água potável. De facto é mesmo um carro que faz mais falta aos indianos!Mas mais que o discurso hipócrita da empresa fabricante, ao afirmarem que fizeram este carro para melhorar a qualidade de vida dos indianos ao promover o fácil acesso a um meio de transporte antes fora das suas possibilidades, o que mais me preocupa são as questões ambientais. Apesar de em termos de emissões poluentes até estar acima das normas em vigor na Índia, para que o carro possa ser comercializado na Europa, terá que sofrer alterações a vários níveis o que fará com que este carro fique 5 vezes mais caro. Estas alterações são a vários níveis e incluem, entre outras, alterações nas condições de segurança do carro (sim, porque os europeus têm que estar mais seguros que os indianos, pois não se podem dar ao luxo de ter acidentes e morrer assim de qualquer maneira….deve ser porque os indianos são muitos) e alterações ao nível das emissões poluentes (sim, porque devemos preservar melhor o ambiente europeu do que o ambiente indiano, pois claro…). Ora, se tal como está este carro não serve para os europeus, porque carga de água serve para ser comercializado na Índia???
A poluição na Índia, tal como a questão da pobreza, é um dos maiores problemas do país. As cidades indianas estão cinco vezes mais poluídas que as cidades europeias. A questão é tão grave que 64% das crianças e ¾ da população feminina sofrem de problemas respiratórios, e até noticiaram em 2007 que o Taj Mahal estava a ficar amarelado devido à poluição!!! E muitos outros factos e estatísticas sobre a poluição na Índia poderia aqui colocar. Ora, dado este quadro ambiental (e de saúde pública!) preocupante será aconselhável colocar este carro em circulação na Índia? No Washington Post escreveu-se há dias "dezenas de milhões de indianos a guiar um automóvel é o fim do mundo em termos de poluição".
Não sou contra o progresso. Sei que a Índia é, em conjunto com outros países, considerada uma economia emergente. Acho bem que os países se desenvolvam e que as suas populações tenham acesso às mesmas condições que nós felizmente temos. Agora, a forma como os países ocidentais de desenvolveram foi a muitos níveis errada, e sofremos todos hoje as consequências de um modelo que se revelou inadequado quer a nível económico, energético, ambiental, e não só. Porque repetir os mesmos erros? Porque não um outro caminho? Porque são mais pobres? A Europa legisla para si, e não intervém quando se coloca um destes carros a circular, com todas as implicações que poderá ter no ambiente? Infelizmente, a realidade é que o dinheiro comanda a vida… Tanta (falsa) preocupação com os países emergentes, e depois… Então venham lá mais uns milhões de carros para ajudar o aquecimento global!!! Não faz mal, estou na Europa e aqui o ambiente é protegido por boas leis… “tá-se bem” aqui. Quando depois os outros lá na Índia não conseguirem respirar, eles que façam leis boas. E depois não me venham pedir o ar da Europa!

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