segunda-feira, 23 de março de 2009

Romantismo de Cócoras

Eu sei que as séries e os filmes, tendo como objectivo principal o entretenimento, embelezam muitas vezes a realidade, transformando-a num ideal de (suposta) perfeição. Contudo há coisas que me escapam… e que de facto não entendo. Uma delas, que já há muito me fazia alguma confusão foi-me exposta novamente ontem enquanto via uma série, dessas que considero de “puro entretenimento” que tem como título “Pessoas Lindas” (tradução à letra). Era a primeira vez que via tal série, e é claro que pelo título, as minhas expectativas não eram as melhores. Tanto é que apenas o que me ficou desse episódio inteiro foi mesmo esta questão do “Romantismo de Cócoras” que também não lhe é exclusiva. Por favor não me perguntem sobre o que aconteceu fora das duas cenas que me levam a escrever sobre este tema, porque de facto não me lembro mesmo… tratou-se a meu ver de entretenimento instantaneamente olvidável. Bem, mas voltemos ao que me traz a este assunto. Durante esta série ocorreram as seguintes situações. Cena 1 – duas pessoas (rapaz e rapariga) deixam cair um objecto no chão. De repente baixam-se os dois para o apanhar, ficando os seus rostos muito próximos e depois de um olhar intenso e apaixonado: trufas! Sai um beijo romântico. Cena 2 (qualquer semelhança com a Cena 1 é pura coincidência) – duas pessoas (rapaz e rapariga) escorregam ao mesmo tempo caindo ao chão após diversos trambolhões espectaculares que os fazem rebolar um por cima do outro numa descida frenética monte abaixo. Quando param de rebolar os seus rostos ficam perigosamente juntos, e depois de um olhar intenso e apaixonado, o inesperado acontece: trufas! Sai um beijo apaixonado. Nas duas cenas devo ainda salientar o facto de que este beijo é o seu primeiro beijo de sempre, que aumenta exponencialmente a carga romântica das duas situações, certo?
Ora bem, as minhas questões sobre isto são as seguintes: isto já aconteceu na realidade a alguém? Aconteceu-lhe a si uma situação similar? Conhece alguém a quem lhe tenha acontecido?... A mim nunca me aconteceu tal coisa, não conheço ninguém a quem tenha acontecido e tenho muitas dúvidas sobre a viabilidade de tal se dar na vida real. Como disse no início deste post, eu compreendo as diferenças entre vida real e vida ficcional tal como os objectivos da ficção, e é um facto de que também existem inúmeras coisas que acontecem em ficção e que também nunca me aconteceram, nunca vi acontecer e duvido que possam alguma vez ocorrer na vida real. Mas então qual o meu problema com estas cenas específicas? A sua recorrência. Estão sempre a acontecer. Aliás deve ser o modo mais frequente de duas pessoas se beijarem pela primeira vez em ficção. Com certeza que todos vocês se lembram de situações assim de filmes e séries, e reparem que só neste episódio de uma série, por duas vezes utilizaram a mesma (sim, porque para mim é o mesmo truque) artimanha para colocar o menino e a menina a darem o seu primeiro beijinho apaixonado.
Agora pedia-vos que fizessem comigo por momentos um exercício empático. Para o efeito de tentar analisar quais as verdadeiras hipóteses do beijo romântico ser o resultado final de uma destas cenas, vou tentar colocar-me no lugar de um dos protagonistas das cenas atrás descritas. Por exemplo, vamos começar pela cena número 2, a queda. Imagino então que caio uma queda aparatosa em que rebolo por cima do alvo da minha paixão… primeiro resultado plausível e possível: magoei-me (estranho até que eles na cena 2 não se tenham de facto magoado seriamente….dado a queda aparatosa que foi….). Dói-me qualquer coisa, um pé, uma mão, o rabo…., parti qualquer coisa….primeiro pensamento: beijar quem caiu comigo? Não me parece. Segundo resultado plausível: a outra pessoa magoou-se. Primeiro pensamento: beijá-la romanticamente? Também não me parece. Tudo bem, mas também poderia acontecer que ninguém se tivesse magoado. Então a sequência seria: tropeção, queda, rebolo, e quando tudo acabasse, restaria um clima romântico que levava a um beijo? Depois de uma queda em que ninguém se magoe só consigo visualizar uma situação caricata e cómica. Ria-me, e ria-me até muito porque as quedas dão me vontade de rir. E então beijava romanticamente o meu par entre gargalhadas? Não se esqueçam que seria o primeiro beijo de sempre…. Também não me parece. Agora imaginem ainda um terceiro cenário, caímos, ninguém se magoa, mas a queda também não tem piada nenhuma. Fica uma situação constrangedora, porque ou se rasgou a roupa ou depois da queda se fica numa posição estranha…. Levantar o mais rapidamente possível com um ar constrangido, ou tentando disfarçar a situação, seria o cenário mais provável também. Daria tempo, para antes de levantar e arranjar a roupa, ainda dar um beijo romântico, com os braços e as pernas ainda contorcidos da queda e a roupa toda fora de sítio? Hum….acham normal?
Agora façamos o mesmo em relação à cena 1 que dá o título a este post: após ou durante o acto de apanha de qualquer objecto do chão que havia caído, estando de cócoras, aí está o primeiro beijo entre duas almas apaixonadas….hmmm….vejamos. O cenário mais provável quando duas pessoas se baixam ao mesmo tempo para apanhar a mesma coisa do chão será, em minha opinião, uma valente cabeçada. Depois de uma valente cabeçada no outro, voltamos ás mesmas opções da cena 1: ou alguém se magoou, a sério ou não, ou então foi só uma situação constrangedora. Então depois de uma valente cabeçada em que ainda se está a ver “coisas azuis” (sim, porque eu não vejo estrelas mas vejo coisas azuis), apetece dar um beijo romântico em quem te deu a cabeçada? Também não me parece. Dói a cabeça, ou não. Mesmo que não doa, acham que ficará um clima romântico depois de uma cabeçada, apesar de não ter sido violenta? Também não. Fica novamente um clima cómico ou então constrangedor, dependendo da personalidade dos intervenientes. Mas tudo bem, pode não haver cabeçada. Podemos estar só de cócoras a apanhar coisas do chão. De facto não consigo imaginar cenário mais romântico, vocês conseguem? E aí está, com as mãos sujas e numa posição tão cómoda como é estar de cócoras (se for uma criança, praticante de ioga ou de sexo tântrico, ou estando em excelente forma física), sem estarmos a pensar em manter o equilíbrio, preocupados se as calças vão rebentar, ou se poderá sair inadvertidamente algo embaraçoso, ou até mesmo apenas concentrados na real “apanha” da coisa no chão (como quem agarra o quê primeiro), pensamos eu como nos sentimos tão românticos naquele momento e o que mais nos apetece é dar um beijo romântico e ficar de cócoras, parados naquele momento para sempre! Plausível? Deixo à vossa consideração…. Em minha opinião, não me parece, mas deixo aqui um aplauso a quem acha de sim, porque me parece que para esses de facto o romantismo está de pé!

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